Paráxeni - 07 - Um Pedaço do Olimpo

"   A Apela era uma reunião política, que se dava uma vez por mês, ao ar livre, onde se discutiam problemas e soluções para o dia-a-dia em Esparta. Mas naquela ocasião a reunião mensal já havia sido realizada. Lanthasménos convocara a todos, com caráter de urgência."

Download.MP3


Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

Sigam Paráxeni no Facebook ou no Twitter 

 

[Transcrição do episódio]

   Nessa etapa de minha vida, éramos praticamente homens.

   A segunda fase do Agogê passava como nuvens esbranquiçadas em um céu azulado, rápida e discreta, e os braços da maturidade nos alcançavam. Agora tínhamos direito a usar sandálias e recebíamos uma túnica puída, suja como um chiqueiro.

   Éramos apresentados ao Melas Zomos, a refeição típica de Esparta. Cletarco me dizia que fora Hércules quem havia preparado o prato pela primeira vez, por isso a refeição era forte e rústica, grosseira e viril.

   O Melas Zomos era a sopa negra dos Espartanos, composta por pedaços enormes de carne de porco, vinagre e sal, água e sangue suíno em abundância. Toda vez que eu comia a refeição, sentia os rios correrem em minhas veias, e por sob meus pés trepidava o solo da Lacônia.

   Certa vez um viajante chegou à nossa cidade imponente, e, faminto, implorou por alguma refeição que lhe devolvesse as energias. Os Esparcíatas responderam que a refeição perfeita para ele estava sendo preparada. Depois da primeira bocada na sopa, o homem implorava pelo fim da refeição. Ele saiu de Esparta dizendo que entendia o motivo pelo qual os Espartanos não temiam a morte, pois só assim eles se livrariam de provar a iguaria uma vez mais.

   Fraco.

   Jamais poderia viver em Esparta. Pois em Esparta não há lugar para pieguice. Tanto era assim que minhas feridas nem bem se curaram e eu já retornava à rotina do Agogê.

   Por comporem uma maioria esmagadora de cidadãos em Esparta, os Hilotas, a classe mais baixa da polis, despertavam uma urgência nos Esparcíatas: A necessidade de controlar a super-população de escravos.

   Eram nessas ocasiões que os Festivais Hilotas aconteciam.

   Os jovens em Agogê eram instruídos e preparados para o início das atividades. Eles deveriam percorrer a cidade, movendo-se em segredo, silenciosos como as sombras, e mortais como a ponta de uma lança. Cada um deveria matar ao menos dois Hilotas, sem ajuda, e em total discrição. Caso fossem flagrados no ato, seriam punidos com o bastão e o açoite, além de perderem a túnica puída e as sandálias. Se o jovem fosse morto pelo Hilota que ele tentasse matar, o escravo ganhava dois dias de folga dos trabalhos manuais, e era agradecido pelo estado, por ter removido um elo fraco da falange Espartana.

   Leônidas e eu nos encontramos com os rapazes, antes de sairmos da Katályma, e decidimos elaborar estratégias de ataque, para que nada desse errado, e ninguém saísse no prejuízo, perdendo sandálias ou túnicas.

   Então saímos naquele dia, ao lado de nossos irmãos, como formigas saindo de um formigueiro. Adentramos a cidade e nos espalhamos pelas ruas, no entanto, em instantes, nem os pássaros lá no alto podiam nos ver.

   Éramos como os espíritos do templo de Lanthasménos.

   E assim percorremos a cidade naquele dia.

   Hora a vítima era um Hilota atarefado, que passava ao lado de um poço carregando fardos ou jarros, e era surpreendido por um de meus irmãos de Agogê, saído do próprio poço. Hora eram Hilotas em meio às plantações, que desapareciam no trigo alto, como se sugados pelo próprio solo da Grécia.

   Foi em uma das forjas, que eu me deparei com os dois Hilotas que matei. Um deles espalhava o carvão na fogueira central, e o outro malhava uma chapa de cobre com força. Investi contra o segundo e lhe tomei o malho, golpeei-lhe a têmpora direita e ele virou os olhos de imediato, morto. Quando o segundo se virou golpeei sua garganta, o metal esmigalhou os ossos de sua goela e rasgou a carne do pescoço, tamanha fora a pressão aplicada na região. Depois os empurrei na fogueira, e joguei carvão por sobre seus corpos.

   Nossa tarefa fora cumprida. Centenas de Hilotas pereceram naquele dia.

   E nenhum jovem foi pego.

   Pois em Esparta se cumpre a lei. E a Lei em Esparta é maior que a própria vida. Fosse essa vida de um Hilota, ou de um Espartano.

 

 

   Havia uma lei em específico, que me traria sérios problemas, já que eu mantinha um relacionamento com um Oráculo. Que agora estava grávida.

   Todo aquele que se deitasse com um oráculo, fosse ele de Esparta ou de qualquer região da Grécia, estava sujeito às penas dentro das polis. Pois apenas os Deuses podiam tocar em seus corpos sagrados e sábios. Acreditava-se ainda, que quando um Oráculo era maculado, seu dom da predição ia por terra, junto ao suor e o sangue do ato.

   O fato era que a lei não abria exceções, mesmo que o próprio Rei Anaxândridres fosse o acusado.

   A pena resumia-se em duas ações:

   A primeira era direcionada ao Oráculo, e consistia em uma execução rápida e sangrenta, nas escadarias do templo do qual ele deveria honrar. E quem deveria realizar o ato era seu amante.

   A segunda era direcionada ao amante, e consistia em amputações e mutilações, seguido de exílio, da cidade e da própria Grécia, e qualquer cidadão Grego poderia espancar o acusado, enquanto ele permanecesse nas terras adjacentes.

   Essa lei não era infringida há tantos anos, que os próprios Éforos não se lembravam quando alguém o tinha feito.

   Eu já havia aceitado meu destino, mas eu subestimava Lanthasménos.

   Antes que eu pudesse pensar em realizar alguma ação, ela já havia resolvido absolutamente tudo. A mãe de meu filho organizou um encontro, e preparou uma Apela, a Assembléia de Esparta.

   A Apela era uma reunião política, que se dava uma vez por mês, ao ar livre, onde se discutiam problemas e soluções para o dia-a-dia em Esparta. Mas naquela ocasião a reunião mensal já havia sido realizada. Lanthasménos convocara a todos, com caráter de urgência.

   Ali, frente aos cidadãos de Esparta, os Reis da polis, e quem mais pudesse ouvir por entre as brechas das casas, ela disse que havia tido um sonho terrível. Alegou que precisaria se ausentar da cidade por período superior há oito meses, ou Ártemis arruinaria toda a caça da Grécia por gerações. Continuou seu teatro, e afirmou que durante o tempo que ficasse fora da cidade, ninguém poderia entrar no templo, ou ela própria morreria na floresta, assassinada pelos espíritos selvagens. De sua boca ainda saíram palavras sobre o seu retorno, que traria boas colheitas e glória para Esparta.

   Toda a cidade ficou temerosa. O respeito que os Espartanos tinham pelos Deuses transpassava os escudos e partia as lanças. Ninguém ousou argumentar.

   E assim, a pedido dela própria, eu, Paráxeni, fui designado a levá-la até a floresta, arrumar-lhe algum local seguro para descansar e retornar para a cidade de imediato. A conduzi para fora de Esparta, e quando não mais víamos as muralhas eu a beijei, me ajoelhei e lhe toquei a barriga, da forma mais delicada que pude. Embaixo dos galhos das coníferas eu lhe fiz uma promessa, de que lhe daria todo o sustento e cuidado enquanto ela não estivesse na cidade, não importa o que acontecesse.

   Naquele momento, eu lhe entregava todo o meu amor, em completa plenitude.

   E ela defecaria sobre ele quando eu menos esperasse.

 

 

   O local que eu escolhi era lindo como um jardim do próprio Olimpo.

   A grama ali crescia sem pressa, suave e densa como minha capa de urso. As borboletas vigiavam o lugar, dançando a melodia tocada pelas Ninfas, delicada demais para ouvidos Espartanos. Dois castanheiros frondosos, de tronco baixo e copa extremamente volumosa, erguiam-se à nossa frente. Eu apontei entre eles e disse que ali eu lhe construiria uma morada bela e completa. Poucos metros ao norte dos castanheiros irmãos, passava um rio calmo e estreito, de margens verdes e plácidas, repleto de peixes, tão cristalino quanto podia ser. Uma grande fileira de dentes de leão rodeava a parte sul dos castanheiros, e eu costumava dizer a Lanthasménos que aquelas eram as falanges da natureza, guardando a morada de nosso futuro filho.

   O ar era leve naquela região, e as folhas das árvores eram verdes e amareladas. A brisa soprava com ternura e o barulho do pequeno riacho tranqüilizava o coração e a mente. Quando as chuvas chegavam, a terra molhada exalava um cheiro de vida, e os próprios castanheiros possuíam um aroma agradável.

   Uma corça pastava atrás de uma árvore, e ela foi nossa refeição naquela tarde.

   Eu quebrei alguns galhos dos castanheiros, outros simplesmente trancei, ainda na árvore. Lembro-me que enquanto eu trabalhava, ela se deitava na grama, me olhando e sorrindo, como uma jovem apaixonada.

   Preparei uma cobertura segura e resistente, que manteria a chuva longe de meu amor. Para o solo encontrei musgo, verde e macio, para evitar que o frio da noite a incomodasse.

   Então parti, deixando-a em segurança e com alimento suficiente. E parti apenas pois eu deveria voltar para Esparta, mas em meu coração eu sabia que voltaria muitas vezes ali.

   No nosso pedaço do Olimpo.

Deixe um comentário

Febrini

NerdSky Marco-Fefrini
E-mail: febrini@hotmail.com
Descrição: Sou uma pessoa comum como muitas outras. Apaixonado por Tolkien e fantasia, gosto de escrever nas horas vagas (e nas outras também), quando não estou editando essa bagaça.

Site: https://www.facebook.com/marcoantonio.febrinijunior E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
voltar ao topo

Máquina do Tempo

« Junho 2017 »
Seg Ter Qua Qui Sex Sab Dom
      1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30    
Publicidade
Top of Page