Paráxeni - 04 - Somos Animais

"A marcha seguia um ritmo acelerado. Todos caminhavam a pé e descalços, porque cada ato simples do dia, da vida, era uma parte do treinamento espartano. Cada jovem carregava seu escudo e sua lança, sua espada e seu elmo, pois fomos ensinados que aqueles que não agüentam o peso de suas armas, jamais poderão agüentar o peso das armas do inimigo."

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Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

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[Transcrição do episódio]

 

   A guerra batia à porta dos homens, como um andarilho estrangeiro, mas era em Esparta que ela morava. Os homens eram a arma mais mortal que os Deuses poderiam ter criado. Mas eles nada seriam. Se não fossem as mulheres.

   As mulheres espartanas eram as mais belas de todo o mundo conhecido, mas sua beleza não se limitava a belos cabelos, ou sorrisos esbranquiçados. Diferente das Atenienses, as mulheres em Esparta tinham um papel importante, estivessem elas na cama ou fora dela.

   Aos sete anos de idade conheciam a Katályma, os alojamentos de treinamento. Recebiam treinamento militar igual ao dos homens. No entanto, eram liberadas no final da tarde, para que completassem o dia junto à mãe.

   Eram encorajadas nas artes e nos esportes, mostrando-se sempre viris e resistentes. A retórica também lhes era ensinada, para que elas pudessem ter voz eloqüente e coerente dentro da polis. Conversar com uma mulher Espartana era como falar com as Deusas do Peloponeso, desde a definição de seus corpos, até a distinção de suas mentes.

   Certa vez uma jovem chamada Anacléia caminhava por um dos jardins da cidade, quando foi abordada por um homem de Esparta. Ele despiu-se e exibiu seu corpo para ela. Sem que Anacléia tivesse demonstrado interesse, ele a agarrou pelo braço, e disse que com suas mãos poderia causar traumatismo craniano até mesmo em bárbaros do fim do mundo. Anacléia nada fez. Apenas lhe respondeu que: Traumatismo craniano era o fruto de mergulhos profundos em pessoas muito rasas.

   Ela se tornou Éforo um ano depois. E foi a primeira mulher a ocupar tal cargo.

   Após o primeiro sangue eram instruídas nas artes sexuais. Onde mantinham relações com Hilotas infecundos, conheciam o corpo de outras mulheres, e aprendiam que os filhos dos Espartanos só eram homens de verdade, pois derivavam das únicas mulheres de verdade.

   A certeza de que os Atenienses invejavam os Espartanos jamais tocou meu coração. Mas eu lutaria contra qualquer Deus que dissesse que as Atenienses não sentiam inveja das Espartanas. Pois o coelho que vive na toca, inveja o gavião que domina os céus.

 

 

   O breu noturno inundava meus olhos. Era impossível distinguir o caminho pelo qual eu seguia. Mas eu já o conhecia bem. O templo de Ártemis era meu segundo alojamento. Minhas fugas eram supervisionadas por meu irmão, Leônidas, que sempre vibrou pelo meu amor. Não havia possibilidade de descoberta, pois o rugido de meu irmão era alto e claro. No menor sinal de alerta eu voltaria e me misturaria às centenas de jovens.

   Todo o risco valia para ver meu amor.

   Mas naquela noite ela não me esperava nua por sobre a grama.

   Lanthasménos estava sentada em seu trono, e os fantasmas a visitavam. Girando à sua volta, cochichando e murmurando, como velhas alcoviteiras, ávidas por contar os causos da cidade.

   Eu me deitei na grama e esperei. De olhos fechados. 

   Seus passos eram macios, a grama gemia por sob seus pés e ela se aproximava como um gato selvagem. Suas unhas arranharam levemente minhas costas, e ela beijou meu pescoço. Nossos lábios se tocaram e os fantasmas assistiram tudo em silêncio. Eu me perguntava se eles contavam as coisas que viam no templo para outros oráculos, mas eles eram silenciosos, e só Lanthasménos podia entender o que eles diziam sem voz.

   Nos amamos naquela noite em meio à névoa bruxuleante. Os corpos suados se movimentando no sexo, grama grudando em nossos cabelos, a terra sujava e nos acolhia como dois lobos na floresta. Mordidas carinhosas eram compartilhadas, e só não uivamos naquela noite porque os guardas nos matariam.

   Somos animais. Ela me disse. Eu não entendi em um primeiro momento, mas ela falou que eu era o maior urso pardo da Grécia.

   Então nos minutos que se passaram ela me contou que Leônidas era o Leão de Esparta. E disse que tinha visto em um sonho, que ela mesma seria rainha de Esparta. E que dividiria o trono com um urso pardo de elmo e escudo.

   Paráxeni, o Urso Espartano. Ela me chamou. Palavras venenosas.

   O trono de Esparta jamais fora minha pretensão, eu sabia de meu lugar, e faria de tudo para que Leônidas o ocupasse, quando nosso pai se fosse.

   Mas meu descontentamento foi em vão. Na manhã seguinte toda a cidade me conhecia pela alcunha.

   O Urso Espartano.

   Durante os treinamentos, nos jogos, nas lutas, pela cidade, todos conheciam o nome. E diziam que Zeus havia gerado a mim e a meu irmão, no lugar de Anaxândridres, pois éramos Leão e Urso Pardo, os animais mais fabulosos que o mundo já vira.

   E assim também fui conhecido até hoje, quando desaparecerei da história do mundo. Mas antes de partir, mais coisas precisam ser contadas a você.

 

 

   O vento tocava meus cabelos. O escudo era parte de meu corpo, e eu me inclinava como uma árvore nova da Grécia. Segurava meu elmo junto à cintura e admirava a paisagem Grega. Ao meu lado cinqüenta jovens, também em Agogê, preparavam-se para marchar. Iríamos para Pátras, na Acaia, lutar uma batalha de verão.

   Essa era a essência de Esparta. A Guerra. Os Esparcíatas não viviam para nada mais, e quando as batalhas não existiam, era preciso que elas fossem criadas.

   Leônidas e eu lideraríamos o ataque. Meu irmão seria o capitão da falange, e eu seu imediato. Lembro-me de ouvir alguns membros do conselho dizerem para o Rei que aquilo era loucura. Que ele poderia perder descendentes de Heracles em uma batalha sem propósito. Meu pai os respondeu que se eu e meu irmão morrêssemos em batalha, não seriamos dignos do sangue do herói Grego.

   Partimos finalmente, em uma das mais longas marchas de minha vida. Mas, quando o cansaço era avistado no horizonte, víamos nos olhos de nossos irmãos Espartanos a chama da persistência.

   Levamos mantimentos suficientes para a ida. Pois deveríamos vencer as defesas de Pátras e nos banquetear por sobre suas mesas.

   A marcha seguia um ritmo acelerado. Todos caminhavam a pé e descalços, porque cada ato simples do dia, da vida, era uma parte do treinamento espartano. Cada jovem carregava seu escudo e sua lança, sua espada e seu elmo, pois fomos ensinados que aqueles que não agüentam o peso de suas armas, jamais poderão agüentar o peso das armas do inimigo.

   O sol escaldante do verão Grego descia sobre nós impiedosamente. Mas havia apenas três momentos no dia em que a marcha cessava.

   Um se dava ao meio dia, para alimentação.

   Outro no crepúsculo, para treinamento.

   E um último ao anoitecer, para dormirmos.

   Porém no quinto dia fizemos uma quarta parada. Na região da Arcádia.

   Os jovens não ousavam falar. O vento não se atrevia a soprar. E até mesmo nosso capitão ficou surpreso.

   Em uma depressão no terreno rochoso, como se tivessem sido atirados ali pelos próprios Deuses, encaravam-se um Leão e um Urso Pardo.

   A apreensão me tomou, e eu tive vontade de gritar uma ordem, para que todos fechassem seus olhos e tapassem seus ouvidos.

   As palavras de Lanthasménos gritavam em minha memória: Somos todos animais.

   Eu me senti obrigado a intervir. Não importava o perigo, as chances ou probabilidades, eu mataria ambos os animais. Apertei a tira de apoio de meu escudo, vesti o elmo e levantei minha lança, pronto para saltar na depressão.

   Mas para minha infelicidade, Leônidas interferiu em meu ataque. Eu implorei para que ele não fizesse aquilo, mas ele gostaria de ver o desfecho da situação. Abraçou-me e disse que aquilo não mudaria nada em seu coração, não importasse qual fosse o resultado, continuaria me amando como irmão.

   Mas em meu próprio coração eu sabia que aquilo o afetaria, de uma forma ou de outra.

   Os animais andavam em círculos. Os olhos não se esqueciam nem por um instante, e seus movimentos eram lentos e cuidadosos. O leão mostrava os dentes, rosnava e balançava a cabeça, pronto para atacar. O urso, por outro lado, era mais silencioso, hora ou outra dava uma bufada muito forte, que movia suas bochechas, mas não se comparava ao rosnado do leão.

   As garras do felino voaram até o dorso do urso pardo. Com sua boca ele mordeu o pescoço de seu adversário, e o jogou no solo. Subiu por sobre o urso e lhe arranhou a barriga, dilacerando parte da carne.

   Eu senti a respiração de meu irmão acelerar ao meu lado. Ele estava torcendo pelo leão, enquanto eu torcia para que fossemos embora dali.

   Mas os Deuses não atenderam o futuro rei de Esparta.

   O urso, caído e à mercê de seu rival, acertou um poderoso tapa no focinho do outro. Suas garras tinham o dobro do tamanho das garras do leão, e ele próprio era maior e mais forte. No mesmo movimento as garras saltaram para fora da volumosa pata, e o Leão não tinha mais o focinho, nem olhos. O maxilar inferior foi lançado pelos ares e metade da cabeça agora estava em carne viva, sem pele. O sangue se espalhava e a caveira de sua cara era visível. O animal cambaleou, sua juba estava ensopada, e então o urso se ergueu por sobre as patas traseiras.

   Alguns homens da falange prenderam a respiração, pois não esperavam aquele resultado.

   O urso pardo agora era uma estátua Grega, com mais de três metros de altura.

   Seu rugido foi alto e rouco, e contínuo como as montanhas da Arcádia.

   O felino jazia no solo, tremendo, sangrando e moribundo.

   Então Leônidas ordenou que aquilo acabasse ali. Ambos os animais foram mortos por lanças. Nosso capitão ordenou que os homens se sentassem e descansassem, desembainhou sua espada e foi até o urso. Eu o acompanhei, como um fiel imediato. Ele começou a remover o couro do animal, ali mesmo, ao lado do leão morto.

   Após ter removido a imensa manta, fez dois pequenos furos e os amarrou junto à própria capa. Ele levaria o couro imenso, no sol escaldante da Grécia, para que ele ressecasse em suas próprias costas, com o sal de seu suor. E, depois de devidamente preparado, ele próprio produziria uma capa para mim, com suas mãos.

   Pois em Esparta há caráter. Em Esparta, há honradez.

   Naquela mesma noite ele me apresentou a capa pronta, preparada e produzida por ele próprio. Entregou-me, me abraçou e disse: Irmão. Somos todos animais.

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Febrini

NerdSky Marco-Fefrini
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Descrição: Sou uma pessoa comum como muitas outras. Apaixonado por Tolkien e fantasia, gosto de escrever nas horas vagas (e nas outras também), quando não estou editando essa bagaça.

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