Paráxeni - 03 - Primeiro Beijo

   "Encaixei a ponteira de ferro na madeira e aqueci o conjunto na chama alta do fogo. Mergulhei couro cru em água fervente, e depois retirei, cortando-o em tiras e amarrando-as próximo à ponta mortal. Então ela estava concluída. Cletarco a examinou, e me disse que a madeira absorveria o suor de minha mão, tornando-a mais resistente e pesada. Quanto mais eu suasse empunhando minha lança, menos eu sangraria sem ela."

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Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

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[Transcrição do episódio]

 

   Minha idade era tão incerta quanto a vontade dos Deuses. Por ter perdido meus pais nunca soube minha idade real. Mas os Esparcíatas me puseram junto aos meninos em Agogê que eram da minha altura. Fosse eu um menino alto e novo, ou fosse eu um jovem mais velho e baixo, a adolescência chegou para mim.

   As transformações no treinamento foram drásticas. Não mais treinávamos com os punhos ou pedras, agora conhecíamos as espadas. A Sídero Spathí era a espada de ferro espartana, com cabo largo e guarda mão curto, ela era leve na ponta da lâmina e pesada na empunhadura. O quê fazia com que os golpes fossem rápidos e pesados ao mesmo tempo. Mas não era essa arma que fazia um Espartano.

   Empunharíamos lanças de guerra. A Loútsos Spartiátis.

   Nesse momento aprendemos a manipular a forja e o ferro. Testamos a temperatura do ferro, o peso do martelo e a complexa produção do carvão. Pois todos os adolescentes deveriam forjar suas próprias Loútsos. Se a lança fosse fraca, o guerreiro também seria.

   O tempo de produção era muito amplo, e alguns jovens produziam suas lanças em até um ano. Eu levei três meses, pois me interessei pela arte de forjar com vigor e energia. E devo isso a meu amigo, Cletarco.

   Cletarco era um homem feito, um Perieco dono de quatro forjas em Esparta. Seu punho era firme como as montanhas da Grécia, e sua sabedoria reverenciava Atena. Ele me escolheu, quando a hora chegou, para que eu fosse seu aluno primordial.

   Inicialmente eu não entendi o motivo da escolha de Cletarco, mas depois ele me disse que em meu olhar queimavam as brasas das forjas de Hefesto, e que meus braços eram martelo e bigorna. Só então eu reparei em algo que não recebia minha atenção.

   O meu corpo.

   O Agogê era cruel e pesado. Mas agora que eu chegava à segunda parte do treinamento, entendia seus resultados. Meus braços e pernas eram fortes como as coxas de um touro, meu peitoral dividia-se ao meio, o abdome era partido em muitas partes, preenchido por músculos estufados e volumosos. Alguns jovens não se desenvolviam, outros atingiam uma condição física excelente, mas meu caso era uma exceção.

   Meu pai, o Rei, costumava me dizer que o sangue de Heracles corria em minhas veias, por isso eu era grande e forte. Mas em meu coração essa resposta descansava em Creta, onde eu nasci.

   Fosse por obra dos Deuses ou por descendência Creta, minha pegada era firme, e meu martelo batia com força e vontade. Dobrei o ferro de minha lança tantas vezes que perdi as contas. Lembro-me de uma vez ter perguntado para Cletarco até quando dobraria a mesma peça de ferro. Ele me respondeu que quando as ondas parassem de quebrar nas praias, e as chuvas caíssem em forma de folhas de oliveira, eu poderia parar.

   Parei muito antes disso, é fato, mas tomou o tempo que precisou tomar.

   O feitio do cabo também foi um longo aprendizado. A haste precisava ser cuidadosamente selecionada, pois a Loútsos poderia ter a ponta mais resistente do mundo, mas isso de nada serviria se o cabo se partisse no golpe.

   Havia um evento em Esparta, onde os jovens em Agogê eram libertos no Peloponeso, para que pudessem procurar a madeira de suas lanças. Alguns colhiam o material nas redondezas da Polis, outros nem dela saíam. Mas eu tinha um segredo, e seu nome era Cletarco. O homem me apontou a direção de Tégea, cidade vizinha de Esparta. Ele me ensinou que lá, próximo a um braço de rio, eu encontraria as coníferas mais resistentes da Grécia. Se minha Loútsos me esperava em algum local, esse local era ali.

   A viagem foi longa, eu me lembro. A pedra galgava a carne de meus pés, e o frio fazia meus músculos vibrarem por sob a pele. Por fim encontrei o local. Com minha espada derrubei uma das árvores, e separei a haste ali mesmo, às margens do rio. A viagem de volta foi mais rápida, pois eu me distraía esculpindo a madeira retangular. Quando eu apontei no arco de entrada de Esparta a haste já estava pronta. Lembro-me até hoje do sorriso de Cletarco. Ele estava orgulhoso de mim. Como eu sinto falta dos ensinamentos e das sábias palavras daquele homem.

   Encaixei a ponteira de ferro na madeira e aqueci o conjunto na chama alta do fogo. Mergulhei couro cru em água fervente, e depois retirei, cortando-o em tiras e amarrando-as próximo à ponta mortal. Então ela estava concluída. Cletarco a examinou, e me disse que a madeira absorveria o suor de minha mão, tornando-a mais resistente e pesada. Quanto mais eu suasse empunhando minha lança, menos eu sangraria sem ela. Meu amigo estendeu a arma para mim, e eu a empunhei. Poucas vezes em minha vida me senti tão divino quanto quando empunhei minha própria Loútsos Spartiátis. Apertei o cabo com força, tencionando os músculos de meus braços e peitoral.

   Finalmente eu era um Espartano.

 

 

 

   A paz reinava em Esparta em algumas épocas. Mas os Espartanos eram moldados para a guerra, não poderíamos ficar parados. E nesses tempos de paz, lutas eram arranjadas. Pequenas guerras contra cidades interioranas.

   Certa vez um mensageiro foi mandado até Pátras, na região da Acaia, e suas palavras alertavam os homens dali para se prepararem para a batalha, pois quando o verão chegasse Esparta cairia sobre eles em um campo de batalha de sua escolha.

   Lembro-me pouco dessa batalha, pois ela foi a minha primeira de muitas. Ao meu lado não havia Esparcíatas. Mas sim meus irmãos de Agogê. Ela ficou conhecida em Esparta como a maior batalha de verão que os Deuses puderam proporcionar.

   Falarei dela quando o momento for propício, pois a atividade da guerra dominava meu coração, e para estes momentos necessito reunir o máximo de memórias possíveis.

   Mas havia outra atividade em Esparta que também morava em meu coração.

   Os esportes.

   Eles eram apresentados na segunda fase do Agogê. Não havia maneira melhor de condicionar o físico do que nos esportes. Fui introduzido ao arremesso de disco, que era feito de madeira e ferro. A corrida rápida, a Grígoro Tréximo, ajudou-me a controlar a respiração, e me acostumar com o peso de meu corpo em desenvolvimento.

   As lutas de braço eram os jogos mais praticados na Katályma, pois dispensavam equipamentos e locais muito amplos. Apoiávamos os cotovelos na pedra, deitados com a barriga no solo, e juntávamos as mãos num aperto firme. O conceito era simples, quem dobrasse o braço do oponente até o solo vencia o jogo.

   Havia um esporte em específico em que Cletarco e eu éramos nêmesis. A corrida Hoplita, onde deveríamos correr completamente armados.

   Os Hoplitas eram os soldados de infantaria pesada de Esparta, que dispunham de elmo, peitoral, caneleiras, capa, cinto e quíton de pano; que era uma túnica curta. Também dispunham de escudo e lança, além de espada e bainha.

   Essas corridas Hoplitas exigiam um esforço quase mortal. Não eram raras as vezes em que competidores desfaleciam durante o percurso. Mas para Cletarco e eu não havia desistência. Nos preparávamos durante semanas, apenas para nos encontrarmos nas corridas Hoplitas, que mobilizavam a cidade inteira.

   O suor descia pelo corpo. O elmo era quente e apertado. As caneleiras cortavam as faixas de proteção e roçavam na pele nua. O peitoral tinha peso elevado, mas ficava mais leve conforme a determinação do competidor se elevasse. O segredo era correr com o escudo à frente do corpo e a lança baixa, pois isso diminuía a resistência do ar e cansava muito menos. Antes de perder Cletarco nas Termópilas a contagem estava empatada, vinte e seis vitórias para cada. Daria um de meus braços para que pudéssemos correr juntos uma vez mais, meu amigo.

 

 

 

   Foi após uma de nossas corridas que algo me aconteceu. Talvez uma das coisas mais terríveis de toda minha vida.

   Eu havia acabado de me despir da pesada armadura espartana, quando fui abordado por uma figura que eu conhecia bem. Eu estava completamente nu, como de costume. Minha respiração era ofegante, pois a corrida havia sido massacrante, e meus músculos estavam inchados pelo esforço físico.

   Ela também se aproximava nua, com os belos cabelos ao vento, um sorriso sedutor nos lábios, e era como se a própria Afrodite a tivesse esculpido no mármore branco. Seu corpo tocou o meu e eu fui prensado contra a parede. Não esbocei reação, fosse pelo desgaste da corrida, ou pela magia dela. Uma de suas mãos tocou meu peito nu, e foi descendo por meu abdome até meu sexo. Ali ela se demorou alguns instantes, acariciando até que ele estivesse viril e rígido como o cabo de uma espada. Com a outra mão ela acariciou meu rosto, segurou uma de minhas mãos e levou até seu seio.

   Eu nada dizia, pois estava hipnotizado.

   Então ela ergueu uma de suas pernas, vagarosamente, insinuante como uma serpente, e apoiou seu calcanhar em meu ombro. Com as mãos direcionou meu membro até a abertura de seu sexo. A penetrei de uma única estocada, forte e profunda, o que a fez virar os olhos e morder os lábios. Em movimentos repetitivos, continuei a ação.

   Então ela me surpreendeu. Com os lábios levemente abertos se aproximou de meu rosto, afagou minha boca e pôs a língua lá dentro, delicadamente, tocando cada centímetro de minha própria língua. Por instinto eu imitei o gesto. E esse foi meu primeiro beijo.

   Foi assim que me apaixonei por Lanthasménos, a pior criatura que já conheci.

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Febrini

NerdSky Marco-Fefrini
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Descrição: Sou uma pessoa comum como muitas outras. Apaixonado por Tolkien e fantasia, gosto de escrever nas horas vagas (e nas outras também), quando não estou editando essa bagaça.

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