Paráxeni - 02 - Quando Uma Deusa Fala

  "O oráculo estava nua e ao seu redor fantasmas dançavam de um lado para o outro. Por sob seu cadeirão haviam rachaduras na pedra, que davam vazão aos gases que a cobriam. Seus olhos eram pedras verdes mergulhadas em poços vermelhos."

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Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

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[Transcrição do episódio]

   A sociedade Espartana era dividida em três grandes grupos:

   Os Hilotas eram o grupo mais baixo da polis. Hilotas. Um nome para disfarçar outro. Eles eram escravos.

   Os Hilotas faziam todo o trabalho do campo, as atividades domésticas, cuidavam da alimentação, lavavam os templos e tudo mais que não envolvesse comércio ou treinamentos militares. Compunham a maior parte da população de Esparta, mas mesmo assim não eram considerados Espartanos. Não possuíam direitos na política do Estado. Na verdade, quase não possuíam direitos, além de comer sobras e respirar o ar do Peloponeso. Sempre que eu via um Hilota andando pelas plantações, disperso, excluído, eu sentia que meu lugar era ali.

   Os Periecos compunham um segundo grupo. Eram os cidadãos intermediários. Cuidavam do comércio e de feitos artísticos ou de artesanatos. Os melhores ferreiros que viviam em Esparta eram Periecos. E um deles era meu amigo Cletarco. Mas a história dele ainda está longe de ser contada.

   A camada mais superior da sociedade Espartana eram os Esparcíatas. Espartanos de sangue e alma. Eles tinham plenos poderes políticos, fazendo parte da Apela, onde eram aceitas ou rejeitadas as leis de Esparta. Podiam ser eleitos Éforos, e desfrutar de seus direitos em plenitude. Apenas os Esparcíatas recebiam a educação na Katályma. Apenas os Esparcíatas passavam pelo Agogê. Todos os Espartanos de sangue podiam punir jovens e garotos, não importa o motivo.

   Certa vez um homem muito velho me atirou em um monte de esterco, pois para ele, eu o havia insultado com meu olhar infantil. Permaneci de cabeça baixa, pois em Esparta se têm disciplina. Ele me disse que eu só sairia dali após dar uma boa bocada no esterco, mastigar e engolir. E essa foi minha refeição naquele dia.

   Se olhando para os Hilotas eu me sentia um escravo. Imagine o que eu sentia olhando para os homens Esparcíatas.

 

   Quando uma criança Espartana nascia, uma grande festa era arranjada. Os Esparcíatas eram convidados para a celebração, e todos eles levavam presentes, honras e graças. Um ramo de oliveira descansava por sobre a porta de entrada da morada, simbolizando o nascimento de um menino.

   A criança, se perfeita fosse, era erguida pelo pai e apresentada aos convidados. Eu aprendi que nessas horas os Deuses faziam um brinde, e bebiam de um gole só. Pois os Espartanos assim o faziam, tudo em um único gole.

   O menino então era reconhecido pelo pai e lhe era dado um nome. E o nome da criança carregaria todo o peso de seu destino.

   Eu não possuía um nome, e isso era um problema para meu Rei.

   Anaxândridres veio até mim em uma noite. O frio se deitava sobre minha pele, e eu dormia ao lado dos cães da Katályma quando ele se apresentou. Vestia sua volumosa capa cinzenta, as sandálias eram amarradas com firmeza, e seus passos eram determinados como um golpe de lança.

   Levantei-me imediatamente, com os olhos remelentos e a visão embaçada. Ele pediu para que eu lavasse o rosto, pois naquela noite eu falaria com uma Deusa.

   Meu Rei conduziu-me pelo portal de entrada dos alojamentos de treinamento, e nos direcionávamos para a Esparta. Seria minha primeira vez de volta à cidade em muitos meses.

   A lua era grande e clara. Os Deuses certamente gostariam de assistir o que aconteceria ali. Não havia tochas ou acompanhantes, a guarda de meu pai havia sido dispensada. Ninguém sabia de nosso passeio noturno.

   Chegamos a uma grande morada de pedras. Era alta e possuía belas colunas de entrada, as escadas estavam banhadas com algum tipo de líquido escuro, que eu não pude identificar naquele momento.

   Sangue.

   Em outros tempos sacrifícios eram feitos naquelas escadas. Mas o costume havia mudado, e agora os jovens em Agogê eram açoitados ali, para que o sangue continuasse banhando a pedra, e a Deusa não se enfurecesse.

   Aquela era a morada de Ártemis, e ali repousava seu oráculo.

   Lanthasménos. Uma das criaturas mais desprezíveis que já conheci.

   Entramos no local. O interior do templo era vazio, úmido e escuro. O piso era peculiar, pois grama ali crescia. Uma grama baixa, forrada por borrões de musgo, recebia nossos passos. Raízes saíam do piso e seguiam para o fim do templo, como se fossem flechas disparadas em um único ponto. O trono de Lanthasménos. Onde ela repousava em transe profundo. Seus cabelos negros e sua pele branca assustavam a criança que eu era. Minha vontade era agarrar a capa de meu pai e esconder os olhos no pêlo. Mas eu não faria isso, o bastão tinha me ensinado bem.

   O oráculo estava nua e ao seu redor fantasmas dançavam de um lado para o outro. Por sob seu cadeirão haviam rachaduras na pedra, que davam vazão aos gases que a cobriam. Seus olhos eram pedras verdes mergulhadas em poços vermelhos.

   Meu pai, o Rei de Esparta, pediu-lhe conselhos, lhe revelou que eu não possuía um nome e pediu para que a Ártemis, através de Lanthasménos, o escolhesse.

   Os gases não escapavam por aberturas, e em pouco tempo nós estávamos respirando os fantasmas do oráculo. Eu pude ver claramente, como o sol do meio-dia, seus cabelos se moverem por vontade própria, como se ela fosse um monstro de outrora.

   Demônio desprezível Lanthasménos era. Ártemis jamais diria palavra em seu ouvido imundo e sujo de cera. O nome veio dela, eu sempre soube disso.

   Ergueu-se da cadeira, de forma anormal, quase como se fosse uma serpente do deserto. Inalou o ar ao seu redor, e de uma hora para outra seus olhos eram esbranquiçados como seiva.

   “Paráxeni. E ele será a Ruína de Esparta.”

   Foi o que ela disse.

   Depois riu como uma prostituta Ateniense.

   “Paráxeni . A Ruína de Esparta.”. Ela repetiu a frase pelos próximos minutos que permanecemos ali. Sempre seguido de risadas. Sempre no mesmo tom.

   O Rei agradeceu com um aceno e me convidou a sair dali com ele. Caminhamos para a saída do local, deixando a frase amaldiçoada de Lanthasménos para trás. Próximo à saída, sobre um escudo de madeira, que fazia as vezes de cesto, aguardavam ramos de oliveira. O Rei escolheu atentamente, mexendo as plantas com as mãos, até que encontrou um que lhe agradou. Era o ramo mais murcho do escudo, mas era o mais forte.  

   Meu pai me olhou, quando saímos do templo, e antes de me mandar de volta para a Katályma ele me disse que Esparta cairia, mais cedo ou mais tarde. Mas que seu único desejo, como Rei, como homem, e como pai, era de que isso não acontecesse por mãos Espartanas.

   Nesse momento Lanthasménos deu um grito, de dentro do templo, repetindo meu nome e meu destino.

   Ergui minha cabeça, contrariando as ordens dos mais velhos. Olhei no fundo dos olhos de meu pai e disse:

   Eu vou lhe provar o contrário. Com a minha vida. Ou com a minha morte.

 

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Febrini

NerdSky Marco-Fefrini
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Descrição: Sou uma pessoa comum como muitas outras. Apaixonado por Tolkien e fantasia, gosto de escrever nas horas vagas (e nas outras também), quando não estou editando essa bagaça.

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