Paráxeni - 01 - Pai e Irmão

"O sangue de Despoinída caía no solo, como se fossem as lágrimas que uma vez eu conheci. Mas não havia espaço para lágrimas em minha vida. Não em Esparta.

   E o aperto lhe sufocava, tanto que sua língua buscava ar fora da boca. Os espasmos lhe atingiram, instantes antes da morte, e com as mandíbulas rígidas ele partiu a própria língua. O órgão caiu na areia, em uma mistura de sangue e saliva."

Download.MP3


Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

Sigam Paráxeni no Facebook ou no Twitter 

 

[Transcrição do episódio]

   Esparta me recebeu com os braços abertos. Eu chegava sob o olhar dos homens, e sob a benção dos Deuses. E nos olhos de cada espartano que assistia meus passos cambaleantes, eu via orgulho e glória.

   Fui conduzido ao Katályma, as barracas de treinamento infantil, que ficavam distantes das casas da cidade. Ali eu seria forjado homem, dobrado e martelado, partido e fortalecido.

   As semanas que se seguiram foram ásperas. Mas em Esparta, essa é a lei e o costume.

   Não havia roupas. Não havia pertences. Tudo que precisaríamos nos próximos doze anos estava em nossos corpos, e em nossos corações.

   Eu e os outros garotos levantávamos pedras de grande peso, corríamos em volta da cidade até a exaustão. Tínhamos as costas e as coxas golpeadas com bastões e galhos de oliveira. Quando esboçávamos fraqueza o açoite era usado. Primeiro nas pernas, pois eram as que fraquejavam de início, e depois no rosto, pois nossos inimigos não poderiam ver Espartanos em angústia. Esta é a fase da Meninice, onde o garoto deveria morrer, e o homem despertar.

   Cavalos eram trazidos, e nós devíamos derrubá-los apenas com as mãos nuas. Era impossível concluir a tarefa sozinho, e ali aprendíamos a trabalhar em conjunto. Alguns meninos distraiam o animal, enquanto outros fechavam o cerco, para assim então pularmos em suas patas e seu lombo. Os coices eram violentos e ossos se partiam. As mordidas machucavam e rasgavam a pele. Mas no final do exercício trazíamos os animais para o chão.

   As refeições eram escassas como os sorrisos dos jovens em Agoguê, mas um Espartano não vive para a comida, e sim para o Estado. As azeitonas eram divididas, e em ocasiões raras o óleo de oliva era entregue aos cozinheiros, que se deliciavam com a maior parte. Era um direito deles.

   Espartanos não se queixam.

   Espartanos não conhecem o lamento e as lamúrias.

   Inicialmente eu não me sentia parte daqueles garotos, tão pouco daqueles homens. Ainda sentia o abraço apertado de meus pais, mas essas eram lembranças tolas, que foram removidas no açoite e no bastão.

   Éramos habituados às baixas temperaturas do inverno, onde a neve toca o solo e Zeus descansa seus golpes de chuva. Permanecíamos no gelo, nus e famintos, às dezenas. E nossos corpos nos aqueciam quando os exercícios não eram suficientes.

   Mas o ar na Lacônia não era apenas neve, e nos verões Apolo castigava o solo com sua carruagem divina. Passei tantas horas embaixo de sol escaldante, correndo e treinando, erguendo pedras e pegando água, que o próprio fogo não mais me incomodava.

   As colunas da Katályma não eram esbranquiçadas como as de qualquer outra cidade da Grécia, tão pouco amareladas pelo tempo ou sujas pela lama.

   Colunas rubras. Marcadas por golpes de punhos, que de tanto se quebrarem enrijeciam e se tornavam resistentes como escudos de batalha.

   Os inimigos não eram cavalos. Nem colunas avermelhadas. Não eram pedras e não se pareciam com a fome. Os inimigos eram humanos. Eram homens. Eles possuíam falhas e era necessário aprende-las. As lutas contra os garotos mais velhos começariam. Ainda não era a hora, mas ali, na arena de areia, eu aprendi uma lição que jamais esqueceria: Matar.

 

   A arena era pequena, nada mais que uma porção do piso afundado e repleto de areia. Eu estava de um lado do circulo, e ele do outro. As lembranças do menino da madrugada vinham à tona, mas eu não teria um punhal desta vez. E os Argonianos não mais me salvariam.

   Seu nome era Despoinída, e em seus olhos queimava a chama da morte.

   Estudamos-nos durante alguns momentos. Olhos de lobo. As faces duras e sérias, como as montanhas da própria Grécia. Guerreiros em corpos de crianças. Os músculos de meus braços respondiam às batidas de meu coração. Eu não podia vacilar. Não haveria uma segunda chance.

   Ele se apoiou em uma das mãos e jogou a perna direita por sobre meus pés, tentando me derrubar. Eu saltei por sobre o golpe e girei o punho no ar, descendo em um movimento firme.

   Areia. Foi o que atingi.

   Ele se movia depressa, talvez tão depressa quanto eu, ou mais. Os homens incentivavam a todo instante, com palavras de coragem e risadas de entretenimento.

   Mas nós não ouvíamos nada. Os maxilares apertados, os olhos fixos. E a imagem do menino da madrugada enchia meus pensamentos novamente.

   Agora fui eu quem atacou. Abaixei-me, flexionando os joelhos, os pés enterrados na areia me deram o impulso necessário. Lancei-me contra seu peito, como se eu próprio fosse uma flecha.

   Quão jovem eu era. Quão desesperado eu estava.

   Ele tentou desviar, mas um de meus joelhos lhe beijou a boca. O golpe deu um estampido seco, que me fez lembrar as surras que eu dava nas colunas, noite após noite.

   Ele caiu em desgraça. A boca coberta de sangue, o queixo travado. Seus olhos estavam virados e ele ainda mantinha os braços erguidos, contorcidos como uma serpente.

   Os homens pararam a algazarra. Mas eu não ouvia nada.

   Despoinída tremia violentamente, e era claro que todos os músculos de seu corpo estavam contraídos.

   Espartanos nunca protelam.

   Eu me aproximei de meu rival. Levantei sua cabeça e passei meu braço por debaixo de seu pescoço, lhe tomei as costas, passei o outro braço por trás de sua nuca e ajustei o abraço.

   Espartanos nunca procrastinam.

   O sangue de Despoinída caía no solo, como se fossem as lágrimas que uma vez eu conheci. Mas não havia espaço para lágrimas em minha vida. Não em Esparta.

   E o aperto lhe sufocava, tanto que sua língua buscava ar fora da boca. Os espasmos lhe atingiram, instantes antes da morte, e com as mandíbulas rígidas ele partiu a própria língua. O órgão caiu na areia, em uma mistura de sangue e saliva.

   Uma fina chuva começou a despencar, e eu permaneci na arena.

   Os homens geralmente comemoravam as vitórias, mas naquele dia ninguém disse palavra.

   Um Espartano se aproximou da arena, e por sobre seus ombros uma capa cinzenta descansava. Eu não sabia naquele momento. Mas aquele era Anaxândridres, Rei de Esparta. E Despoinída era um de seus filhos.

   Ele entrou na arena, onde o filho permanecia partido. Sem vida. Abaixou-se em frente a mim e com uma mão me tocou o ombro. Com a outra ele chamou seu outro filho, que também estava em Agoguê. Ali, em meio à areia e sangue, ele me tomou como seu filho. Pois em Esparta há mérito. Em Esparta só os fortes são merecedores.

   Ele perguntou o meu nome.

   Eu não o respondi. Pois não me lembrava de minha antiga vida.

   Ele me apresentou seu outro filho, e me disse que daquele dia em diante eu e o menino éramos irmãos. Dentro e fora de Esparta.

   O garoto me chamou de irmão. E seu nome era Leônidas. 

 

(Apoiem e incentivem o projeto, deixem um comentário.)

Deixe um comentário

Febrini

NerdSky Marco-Fefrini
E-mail: febrini@hotmail.com
Descrição: Sou uma pessoa comum como muitas outras. Apaixonado por Tolkien e fantasia, gosto de escrever nas horas vagas (e nas outras também), quando não estou editando essa bagaça.

Site: https://www.facebook.com/marcoantonio.febrinijunior E-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
voltar ao topo

Feeds do Paraxeni

Máquina do Tempo

« Outubro 2017 »
Seg Ter Qua Qui Sex Sab Dom
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30 31          
Publicidade

Últimos Capítulos

Top of Page